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Ao Fim do Mundo e mais além

Fim do Mundo, Maio de 2019, Ferragudo

AVISO: O Fim do Mundo pode estar bem mais próximo do que imagina. Não será anunciado no telejornal nem nas cartas da Maya. O mí(s)tico Alexandrino, firme e hirto como sempre, nem suspeita do local exacto onde a hecatombe sucede. Na verdade, encontrá-lo pode requerer um bom GPS e alguma sorte, mas não é preciso nenhum Bruce Willis para resolver a situação. O Trip Advisor assegura que vale bem a pena ir à aventura e, dizem os bons palatos, tudo acaba bem neste Fim do Mundo, tão próximo do Velho Novo (há muita criatividade em Ferragudo, gente).

Decorou-se fartamente com utensílios agrícolas e de cavalaria, balanças, chocalhos, chaves, ferraduras, loiça de porcelana — ah, as saudades das quermesses, não é? — e uma coroa de cataplanas sobre a cozinha, lembrando as tradições da região e a origem dos seus produtos, mais da terra que do mar, tão afamados por esse mundo sem fim. Os doze cavaleiros sentir-se-iam em casa.

Jo e Vasco recebem-nos num português com sotaque british, bem-disposto e gentil, descontraído e cordial que toda a equipa pratica no trato familiar. Os comensais representam a profecia babilónica, incumbindo-nos a tarefa de representar a pátria Lusa armados de talheres e copos. Fomos à luta. Tal como nas sagradas escrituras, enfrentámos um dilúvio e apressámo-nos a recolher os animais que pudemos. Nos copos contivemos a precipitação entorpecedora de Cabrita Tinto e em tostas amparámos um queijo de cabra com mel, pimenta e alecrim capaz de acordar Lázaro. Salvaram-se ambos com distinção.

Cientes do nosso papel de embaixadores naquele findar de planeta, dispensámos o camarão tigre que prometia deliciar-nos e não perdemos muito tempo a namorar os nacos de carnes maturadas que a vitrina da sala exibe. Inspirados pela joalharia da cozinha, escolhemos a Cataplana à Fim do Mundo de entre duas outras, e o resultado foi uma dose soberba do melhor que o «Algarve carnal» tem para oferecer: lombinhos perfeitamente cozinhados entre amêijoas, camarão, chouriço regional e bacon, em quantidade e sabor que pareciam infinitos. Pela contiguidade do espaço pudemos ver que também os bifes, as costeletas e restantes pratos são bem servidos e agradam em várias línguas.

Com duas barrigas e uma embalagem de take away cheios, achámos prudente pedir só uma sobremesa, o que se torna um desafio à altura do Messias quando as casas teimam em apostar em sobremesas gulosas, frescas e caseiras. É coisa do Demo, só pode. Para refrescar os ânimos do Cabritinha endiabrado, veio uma mousse de limão deliciosa e suave que foi extinta ali mesmo, sem perdão.

Queríamos pedir a conta e rebolar até à saída quando nos obrigaram a comer dois pequenitos pastéis de Belém com sorvete de limão. Foi mesmo à má fé, só para apurarem se éramos portugueses de gema ou impostores made in Taiwan. Inspirámos fundo, demos conta do recado e saímos de cabeça erguida mostrando que o país que deu «novos mundos ao mundo» ainda tem gente com raça. E com fome.

Sem temores de Apocalipses, voltaremos brevemente à emissão com notícias do Fim do Mundo, do Velho Novo ou de outras caricatas ocorrências que Ferragudo protagoniza. Até lá!

Restaurante Fim do Mundo

Rua Manuel Teixeira Gomes, 28
8400-260 Ferragudo, Faro

Abre às 18:30 (encerra às Quartas-feiras; fechado para férias entre 15 de Dezembro e 1 de Fevereiro)

T: 964 172 058 (reserva aconselhada)

Preço: alto

Maria João Barbedo e Roberto Leandro

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