Artes & Cultura

O fim de Game of Thrones

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Este texto contém spoilers sobre a oitava e última temporada de Game of Thrones. Assim, se ainda não a viste até ao fim e/ou se te derretem os olhos por ler coisas que podes não ter visto no ecrã, poupa o teres de limpar gema de olhos às cegas do chão e não leias.

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Oberyn Martell a espichar gema de olhos

Este sabor agridoce que se sente ao terminar a série não é algo de inteiramente novo, já nos acompanha de maneira cada vez menos discreta possivelmente desde a 6ª temporada, em que a simultânea falta de suporte escrito do génio literário que é George Martin, e o acelerar marcado da narrativa que começou a cortar cantos para apressar o final, começou a pesar na qualidade dos episódios e, consequentemente, nos espectadores.

A pausa de um ano entre as temporadas 7 e 8 não ajudou em nada esta sensação de um final feito à pressa e com uma linearidade narrativa que dói, ainda mais por contraste com o complexo novelo de poder, luxúria e guerra a que Game of Thrones nos habituou.

Não que tudo seja uma desgraça. O elenco continua o seu trabalho incrível, continua a haver uma atenção ao detalhe notável com os cenários, os figurinos, os efeitos especiais (aqueles dragões são qualquer coisa), mas cada vez mais a história que deveria juntar tudo isto, parece colada com cuspe, pouco coesa e muito longe do brilhantismo e irreverência que nos deixaram de queixo caído com a decapitação de Ned Stark, sem esperança após a morte de Rob Stark e a gritar vivas com a morte da criatura mais irritante da face desta terra imaginária, Joffrey Baratheon.

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Joffrey Beiber

Longe dos tempos em que era uma incógnita quem vivia e quem morria em Game of Thrones, na temporada 8 vê-se uma batalha de Winterfell em que, tirando a grandiosidade visual de ver um exército de gente falecida tomar a cidade, dragões a lutarem contra dragões e Lyanna Mormont, uma menina de 13 anos, a malhar valente num gigante zombie, matando-o, falha em tudo o resto.

Do ponto de vista militar, táctico, estratégico, do que lhe quiserem chamar é uma lástima, começando com uma carga frontal de cavalaria ligeira a um alvo indefinido contra quem, não fosse pelo milagre súbito de Melisandre, nem tinham armas capazes de causar dano, uma vez que os arakh (aquela cimitarra marreca, tipo foice, que eles usam) dos Dothraki não são nem de aço Valeriano nem de obsidiana e como tal, incapazes de afectar os zombies de gelo.

Toda a lógica e consequência é deitada ao lixo por um par de cenas que ficam no olho. A coisa boa é que ficamos a saber que mesmo os mortos sopram as velas em dias de festa, pois pela quantidade de Dothraki que se veem mais tarde em King’s Landing, as luzes a apagar depois da carga em Winterfell não são claramente Dothraki a morrer, são mortos a soprar as velas ao Night King. Os rapazes estão todos bem e com vigor para dar e vender nas próximas batalhas.

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Esta pessoa pequenina iliba a casa Mormont de todas as pieguices de Jorah. É rija e mata um gigante zombie à chapada.

As peças de artilharia colocadas, sabe deus porquê, fora das muralhas são utilizadas até à carga de cavalaria e abandonadas depois não vá o Night King transformá-las em pedras zombie que serão utilizadas contra os vivos. O plano de batalha é de tal maneira bom (volta a ser fantástico em King’s Landing) que após a retirada de emergência de tropas que nunca se percebe bem o que foram fazer para fora das muralhas, não parece haver homens suficientes para defender… as muralhas.

Componente táctica à parte, rapidamente se percebe que os tempos em que esta série brilhava pela sua imprevisibilidade narrativa estão mortos, enterrados e nem como zombies voltam à terra. Assistimos a um previsível massacre em que os protagonistas se vão salvando por conveniência narrativa e escrita preguiçosa e não pelas suas habilidades ou por qualquer plano fantástico que possam ter desenhado.

A morte do Night King seria um momento de comédia, de tão mau, fortuito e inconsequente se não nos deixasse na boca o sabor férreo da desilusão de ver o antagonista-mor de todos os vivos ser morto sem mais nem menos por uma super Arya que se valeu dos seus longos anos de treino com o King Kai e da sua técnica de teletransporte que tanto safou o seu antepassado Son Goku Stark.

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King Kai, o grande mestre de que ensinou o teletransporte a Arya Stark

Consequentemente os sacrifícios de Theon Greyjoy, Beric Dondarrion e Jorah Mormont surgem tão forçados e descartáveis que aleija. A cena em que Dany fica durante a batalha a admirar os glúteos de Jon Snow durante tempo suficiente para que Jon chegue a pé às muralhas e Drogon fique infestado de zombies é das mais péssimas alavancagens para a morte de uma personagem. Bem, é a ultima temporada e alguém tem que morrer. Sem ressentimentos Jorah. Entras no próximo Expendables.

Após esta batalha entramos num momento interessante de viragem. Chamo à atenção para o facto de que critico 0 as escolhas de final que os autores da série decidiram dar a cada uma das personagens, gostando mais ou menos de cada um deles, mas critico muito o percurso (ou a ausência dele) que os levou a tais desfechos.

Sabemos, após a batalha de Winterfell, que sobram dois dragões a Daenarys e que ainda que o seu exército esteja muito diminuído (achávamos nós) não há qualquer hipótese de Cersei ganhar. Ficamos com a pulga atrás da orelha sobre a única maneira de isto ainda dar 3 episódios esticados ser Jon e Dany virarem-se um ao outro, pois de outra maneira isto acaba em 1 episódio de tamanho normal.

E é aqui que se acelera ainda mais o número de personagens descartáveis sem causa, apelo nem agravo, e se apressa vertiginosamente o fim como se de uma corrida se tratasse e só interessasse passar a meta. Concordância, sentido ou consequência são coisas secundárias.

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Próximos colegas de elenco de Jorah Mormont

O dragão Rhaegal morre porque tem de ser, para nos dar a fraca ilusão de que Cersei tem alguma hipótese, ilusão tornada ainda mais ridícula pela batalha de King’s Landing onde Drogon sofre uma mutação que lhe permite cuspir TNT em vez de fogo, destruindo cidade e frota (que entretanto, de um episódio para o outro perdeu as habilidades de auto-aim e reload instantâneo) sem qualquer oposição.

Os génios militares de Lannister acharam por bem vir enfrentar Unsullied e Dothraki, que Bran havia ressuscitado com as 7 bolas de Cristal, em campo aberto, em vez de ficarem atrás das muralhas com balistas que mesmo que neste episódio específico já precisassem de recarregar ainda deviam ser capazes de aleijar à bruta. Se soubessem eles que Drogon cuspia explosivos talvez tivessem entregue Cersei no episódio anterior e poupavam o fumeiro que se seguiria.

Arya vai fazer turismo apocalíptico a King’s Landing uma vez que os responsáveis pela série decidiram criar um momento fofinho entre ela e Sandor Clegane e fazê-la desistir não de um qualquer nome da sua lista (que foi a motivação-mor desta personagem desde a 2ª temporada) mas da pessoa que Arya mais queria matar em Westeros. Porquê? Porque sim. Não fosse pelo teletransporte à King Kai, Arya tinha sido irrelevante em toda a temporada.

Jaime abandona também ele toda uma transformação que havia feito ao longo das últimas temporadas, vence Euron Greyjoy com a ajuda do espírito santo, supera umas facadas no lombo que são coisas que não aleijam, para poder dar um fim redentor a Cersei que nesta temporada existiu, só.

Varys tem provavelmente a melhor morte da temporada, pois não constitui um desvio conveniente daquilo que a personagem é e acredita.

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Num mundo de supremacistas eunucos Varys é o verdadeiro sacrificado que dá a vida para que aqueles com capacidade de reproduzir possam… reproduzir-se.

Por fim, destaco que os sempre conflituosos e caprichosos senhores de Westeros, estranhamente representados, decidem escolher um novo rei numa cerimónia que tem tanto de feita em cima do joelho, como de grotesca. A decisão de quem é o monarca (ou monarcas) de Westeros, antes, durante e depois da dinastia Targaryen, independentemente de o serem por sucessão, conquista ou nomeação, reflete os poderes já instalados ou em ascensão que ambicionam influenciar o destino dos 7 reinos.

O processo de escolha de Bran, não desfazendo o seu valor como candidato, é tão forçado e martelado com aquele argumento de Tyrion sobre boas histórias que só não é o mais fantasioso e fantástico momento da série por Sansa declarar a independência unilateral do Norte como quem pede que lhe passem o sal à mesa, e os restantes não fazerem o mesmo de seguida com os respectivos reinos (nomeadamente Dorne onde o sentimento independentista é pelo menos tão forte como no Norte e historicamente foram independentes durante mais tempo), deixando Bran e Tyrion, Rei e Mão de uma cidade em ruínas.

É também pobríssima a maneira como os diretores decidem lidar com os Unsullied e como decidem não lidar com os Dothraki que certamente cometem suicídio coletivo após a morte de Dany e, convenientemente, nunca mais voltam a ser vistos.

Ficam por responder perguntas como que sentido faz, a partir do momento em que os Unsullied saem de Westeros, manter Jon Snow exilado no Norte? (Reencontro fofinho com Ghost menos uma orelha, I guess). Que sentido faz Torgo Nudho libertar os responsáveis pela morte da rainha que era para si e para os seus como uma deusa, sendo uma personagem que defende que todos os que se opõem a Daenerys Targaryen deviam ser varridos do mapa? O que dizer das constantes mudanças de humor do mesmo desde a morte de Missandei que o fazem oscilar entre o soldado híper disciplinado e o toldado pelas emoções em combate, entre o seguidor cego e o líder? Qual o destino dos Dothraki que longe da sua terra e sem a sua rainha vêem-se de novo sem nada, mas agora presos numa terra cercada por mar? Voltam aos seus hábitos nómadas pilhando aqui e ali? Tornam-se agricultores e vão cultivar couves nos terrenos de Bron? Tudo isso seria fantástico de ver se tivesse sido construído em vez de lançado sobre a audiência, como de resto quase tudo, inclusive as mudanças em Daenarys.

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No ghosts were harmed during the production of this post.

Somando tudo fica aquele sabor agridoce de uma série que durante vários anos foi o pináculo do que se fez em televisão, dentro e fora do género em que se insere, mas que foi perdendo fulgor como tantas outras séries brilhantes e cuja qualidade da narrativa não acompanhou os livros nos quais se baseou e que eventualmente ultrapassou. Acabou com a sensação de uma série esgotada em si própria, o que é uma pena considerando o talento do elenco, a brilhância da história base, o dinheiro disponível para fazer tudo acontecer durante o tempo que fosse preciso e a capacidade que a equipa de Produção e Realização mostraram nos melhores tempos desta série.

No entanto, e parecendo que não será a ultima vez que veremos Westeros na pequena tela da  TV, ficamos à espera do que mais estará para vir. Sem pressas.

Nuno Soares

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