Artes & Cultura, Nas Asas da Poesia, Rubricas

A Transformação do Oceano – Canto IV

Canto I 

Era uma vez um oceano que tinha secado

E num imenso deserto se havia tornado

E, a cada momento, ousava sonhar

Com um passado ao qual desejava voltar.

 

O sol lá bem alto no céu a brilhar,

O calor que tudo conseguiu secar

E a chuva que não mais se viu a cair

Tiraram-lhe a vontade de sorrir.

 

A água, a vida, a imensidão

Hoje não são mais que desolação

E as ondas, correntes e cada maré

São meras memórias do que já não é.

MG

 

Canto II

E repensou :

“Cem mil anos soprei lamentos

Por da falta de água e sal.

Outros cem mil chorei pó

por não ver o peixe nadar.

Mais cem mil para tolerar a areia

E ainda outros cem mil

para me habituar ao vazio.

 

Ao fim de cem mil mais

Já sentia as novas vestes como minhas.

 

Aprendi a voar no tornado como fazia no tufão.

A esculpir a duna como se fora onda.

A contar o escorpião, a cobra e o rato

Qual sardinha, tubarão ou baleia.

A seguir a caravana do homem berber,

Semelhante do barco do pescador.

A descansar no oásis verde

Primo da ilha secreta.

A respirar a aragem seca

Oposta ao iodo reparador.

 

E por cem mil anos me deixei estar…

Encantado.

 

Que vou fazer nos cem mil anos seguintes?”

RN

 

Canto III

Coisa que lhe ensinara a longevidade

Nada é imutável por infinita idade

E se de ser mar tivera outrora saudade

Vê no seu desidratado ser uma nova beldade.

 

Tórrida de dia, de noite gelada

Aparentemente vazia à vista desarmada

Mas cheia de vida ao abrigo da escuridão

O vento assobia, um hino: evolução.

 

Mas num planeta vivo há perpétua mudança

E essa realidade deve guardar-se na lembrança

Pois num momento, das forças, de parca temperança

Tudo agita, rui, explode, muda e avança

E até na sua inconsciente significância

O sacro, cego, surdo, símio insano ajuda à dança.

 

Uma gota caiu primeiro, quente e doce, parecia, pela falta de sal

Outra seguiu, e de duas gotas de água não se conhece nenhum mal

Vieram primas, irmãs e amigas, humidamente reluzentes

Juntas, revoltas, incansáveis

Tão tormentosas e imparáveis

Que no seco solo surgiram sulcos, como se água tivesse dentes.

 

Doentes e aflitos sucumbiram nas suas tocas

Justos e bandidos das suas tendas fizeram docas

De bom grado trocariam camelos por focas

Mas apre! Na b’arca só cabem um par de maçarocas…

 

A tormenta seguiu, o silêncio suplantado

E novo mar foi nado; mas por falta de anúncio

E tão grande mortandade, deu-lhe firme abrenúncio

E sem expectável prenúncio as águas recuaram

De uma nova qualidade, emergiu o solo encharcado

E plenas de humildade, as primeiras sementes brotaram.

NS

 

Canto IV

Desert V

Água    Vida     Geração

Dissecada a hidratação 

renasceu a condição 

outra dança outro macaco.

Nada foi o que hoje é.

Nesta esfera rotativa

haja arcas de Noé

e genica evolutiva

pra fugirmos do buraco.

 

Quem nos viu e quem nos vê

macaquinhos à mercê 

no trapézio da mudança

Há escassez e abundância

mares desertos da inconstância

num planeta em AVC.

 

Aquém sementes nascendo

Além as gentes morrendo

e um “universo em expansão”

É natureza mordendo

o parasita ofendendo

a materna criação

 

Houve mar e mar imenso

ond’ há secura e aridez.

Muda o rosto…o corpo…e penso:

Quando mudamos de vez?”

Roberto Leandro

 

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