Artes & Cultura, Nas Asas da Poesia, Rubricas

Era uma vez um anão gigante – Canto IV

Canto I

 

Era uma vez um anão que tinha sonhos gigantes.

Mesmo desperto sonhava coisas tão exuberantes

Que a vizinhança o dizia meio homem, meio tolo,

Pão mal cozido na côdea e claro está, no miolo.

 

Pois era tão desmedido na fome de o mundo ver

Que o seu olhar se parecia com aquela ave a arder.

Lançava em tudo centelhas como se pão aos pardais,

Deitava entrudo nas velhas co’a homilia dos jornais

E tudo era novidade, nova idade, outro relance

Por teimar o pigmeu ver muito além do seu alcance.

RL

Canto II

 

Sem querer saber o que o mundo dizia

Um futuro brilhante a si augurava

E até cumprir a sua profecia

O anão gigante, de novo, sonhava.

 

Sonhava de noite, sonhava de dia,

Sonhava acordado e enquanto dormia

E, enquanto sonhava, o anão sorria

Por saber que via o que outros não viam.

 

Sabia-se destinado a grandes feitos

Apenas não sabia, ainda, quais

Sabia que estava entre os eleitos

A figurar, p’ra sempre, nos anais.

MG

Canto III

 

Gigante de ideias, o anão

escreveu numa árvore

todos os desafios, à mão.

Todo o tronco e todos os ramos,

tudo talhou com o canivete;

eterno registo dos seus planos.

 

No primeiro que teimou,

Havia de caber dentro de um garrafão!

Tanto vidro soprou

O seu pequeno pulmão!

Formou tão grande contentor

com largo gargalo de entrada,

por onde se atirou, ufano de valor.

Mas esqueceu-se da escada…

 

Por sorte, passava ao largo

Um comerciante de vinho e aguardente,

Que vendo tal situação aberrante

se acercou do anão engarrafado:

“- Ó chefe, que faz aí dentro?

Não se sente um pouco apertado?”

“- Patrão, pus o pé em próprio laço

e se depressa não me evado,

fico aqui fermentado!”

 

O vendedor encontrou um grande pedra

Atirou ao vidro…

Vibrou, lascou, mas não quebrou

Tão dura era a casca vítrea

Que o pigmeu formou.

Atirou uma segunda vez

e a mesma resposta ressoou.

Terceira, quarta, quinta e sexta.

Tanta lasca lhe fez,

mas a noz não se revelou.

 

“-Traga-me do seu vinho, patrão.

Regue-me com o seu bagaço.

Encha este garrafão!”

As pipas foram vertendo,

o prisioneiro nadando, subindo.

E assim saiu pelo gargalo.

 

Riscou ainda mais uma façanha

Beber mais que o maior dos homens!

Tanto vinho bebeu

O seu pequeno estômago!

Apanhou uma piela tamanha

e adormeceu à sombra da sua ideia.

RN

Canto IV

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Do sol, os primeiros raios, acordaram-no sem aviso

Hirto, torpe, seco… embrutecido

Sentindo-se como, de batatas, uma velha saca

Desfalecido, combalido, desvalido, não mais destemido

Ferido, por tão devassa ressaca

Tão aguda e bruta aflição córnea

Que largou de vez a pueril boémia errónea.

 

Na crástina manhã

Já de novo recuperado

Sentou-se concentrado

Perscrutando novo fado, que sem o matar de enfado

Nem tão pouco de figadeira

Lhe permitisse sem brincadeira

Satisfazer a sua ambição de titã.

 

Para os campos não iria,

Com braço e perna curta nem para espantalho servia,

Para artesão também não,

Não esquecia o gigantesco garrafão

Cuja etanólica salvação

O fizera desejar estar debaixo do chão,

Tal fora a secura e aflição.

Que situação…

 

E agora? Para alcançar a tão desejada afirmação,

A sonhada confirmação,

De antanho a louca ambição,

Precisava de um talento, alento, uma capacidade

Algo em que fosse único, incrível, inigualável,

Algo tão fantástico como louco e… saudável.

Inegável que desde de tenra idade

O seu atributo mais apreciável

Fora a imaginação e a férrea determinação

Em criar o que conseguira imaginar.

 

“Ora aí está algo que se pode ensinar!”

Pensou satisfeito, expressando típico trejeito

De para quem a arte de sonhar

Sempre foi deste jeito,

O percurso a caminhar.

 

Nuno Soares

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