Artes & Cultura

As Intermitências da Morte, de José Saramago

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«No dia seguinte ninguém morreu. O facto, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme, efeito em todos os aspectos justificado, basta que nos lembremos de que não havia notícia nos quarenta volumes da história universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenómeno semelhante, passar-se um dia completo, com todas as suas pródigas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e nocturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, uma queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada

Um dos grandes contributos de Saramago, para lá de nos devolver o amor fiel à Língua Mãe e de resgatar o sentimento telúrico pela pátria de antanho, é seguramente a perscrutação das questões fundamentais da existência humana, sempre guarnecidas por si de um olhar novo, uma voz incisiva e um pensamento crítico, filosófico e tão paradoxal quanto os próprios temas que releva.

Não é raro descobrir no Nobel português a abordagem de temas existencialistas que regem a ética e a moral da humanidade. Nesta utopia escrita aos 82 anos, decide dar férias à morte num país muito parecido com o nosso, onde gente muito parecida connosco teme a morte e sonha com a imortalidade. Mas será a imortalidade sonho ou pesadelo?

Numa época em que se debate a eutanásia e a escassez de alimentos e recursos naturais num futuro muito próximo, que consequências teria, mesmo que apenas entre as fronteiras de um país, a ausência muito prolongada da malfadada ceifeira? Como ficariam os hospitais com acidentados e moribundos que se negavam a partir? Como pagaria o governo as pensões (se pagasse algumas) a tanta gente que por cá decidia ir ficando? E a Igreja, em que assentaria agora a sua doutrina? Já as funerárias, pela hora da morte, fariam o seu próprio enterro? Todas estas possibilidades são autopsiadas numa utopia que se torna distopia, ou não fosse este um dos escritores mais complexos e imprevisíveis que já viveu entre nós. Por falar nisso, paz à sua alma.

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Depois de exploradas as minudências de sete meses sem toques de finados, onde coexistem o desespero, a dúvida e as soluções pouco ortodoxas, a morte regressa do seu descanso que parecia eterno e decide pôr a escrita em dia. Pragmaticamente fatal, envia cartas aos defuntos destinatários com a informação detalhada da data e horário do falecimento. Faz lembrar as Finanças, não faz? Se a dúvida persistia no regresso da morte, agora todos saberão a hora exacta da derradeira viagem. Nesta possibilidade, o conhecimento passa a ocupar um lugar: uma campa no cemitério mais próximo de si.

Saramago humaniza ainda mais a indesejada quando a deixa a braços com um problema de correspondência devolvida consecutivamente, algo que dá a muitos de nós apetência para o homicídio com justa causa. Morta de curiosidade, a femme fatale decide encarnar e vir saber por que se recusa a morrer certo indivíduo. Daí se desenvolve a inesperada personificação do esqueleto da foice, relembrando a película Meet Joe Black, em que Brad Pitt vem ao mundo para levar Anthony Hopkins desta para melhor (duas interpretações do Além, diga-se). Todavia, e tal como no filme, esta acaba por descobrir uma coisa bem capaz de nos fazer bater as botas: as emoções, em particular esse veneno genocida que é o amor. Não mói, mas mata?

Mais uma vez, José Saramago deixa-nos a pensar na vida, perdão, na morte, e nas suas intermitências, incumbências e até insuficiências. No mal necessário que é perecer e na inevitabilidade dessa hora que, conhecida ou não, rege a nossa permanência por aqui de formas muito mais intrínsecas do que alguma vez pensámos, qual borboleta-caveira mudando o destino de cada local onde poisa. Um romance sublime que, como a protagonista, deve ser conhecido na nossa vida pelo menos uma vez.

Roberto Leandro

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