Artes & Cultura

Crónica de Um Bom Malandro: o génio sacaninha de Mário Zambujal

crónica dos bons malandros

Acrescente-se a um alentejano a experiência jornalística da velha guarda, o espírito bon vivant e o talento nato para a compreensão da malandrice lusitana. A escrita que dele resulta torna-se lugar mágico de intensa pândega entre a imaginação fértil, o humor requintado e o olhar sarcástico mas complacente sobre a humanidade que habita estas quatro linhas. Crónica dos Bons Malandros foi a obra-prima que afirmou Mário Zambujal como autor indispensável à literatura nacional, mas tudo o que a sua pena produz é digno de contemplação. Tomem-se os exemplos de Dama de Espadas, Histórias do Fim da Rua ou Longe é um Bom Lugar (e o resto são histórias) só para atestar o rol de malandrices que o padrinho da sacanagem vem cometendo descaradamente.

A história da quadrilha mais famosa (e improvável) de Portugal foi publicada em 1980 e filmada apenas quatro anos depois, realizada por Fernando Lopes. Seguiram-se inúmeras reedições, revisões do autor e, mais recentemente, até um musical se fez. Tanto trabalho não pode ter sido em vão. Até porque se um grupo de meliantes se propõe roubar joias ao Museu da Gulbenkian sem sequer fazer uso de armas, a coisa promete. Será que cumpre?

A novela, contada no ritmo ágil e em discurso astuto e autêntico que caracterizam o estilo «Zambujalesco», imerge-nos no submundo do crime através de personagens que nos marcam a imaginação e a vida como muito poucas. Num relato que se agiganta ao pequeno livro (como todas as de MZ), o chefe «Renato Pacífico» lidera a quadrilha composta por «Pedro Justiceiro», «Flávio Doutor», «Arnaldo Figurante», «Adelaide Magrinha», «Marlene», «Silvino Bitoque» e o gaulês «Lucieu Obelix». O grupo persegue a sua caça às joias protagonizando peripécias hilariantes, desvendando truques e códigos da má vida e erigindo na velha Lisboa um cenário de esconderijos, golpes quase perfeitos e criminosos conscientes que, à moda deste grande senhor, nos retratam a humanidade e a sociedade portuguesa tal qual ela é.

Sem filtros, sem tabus, sem vaidades estilísticas na escrita, só Português do bom. Pela mestria na condução da trama e olho clínico para a escolha da semântica, Zambujal assumiu-se há décadas como o pai da sacanice suprema: a arte de nos gamar o tempo e refundi-lo nos seus livros, fazendo-nos cúmplices do seu imaginário incomparável e condenando-nos à gargalhada espontânea e ao vício incurável de consumir as suas linhas. Zambujal é um criminoso como há poucos, veterano do ilusionismo e mestre da subtracção de males alheios: depois de lê-lo, até a má vida parece espectacular.

Roberto Leandro

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