Artes & Cultura, Nas Asas da Poesia, Rubricas

A Lenda – Canto II

Canto I

Era uma vez… o vazio,

Uma vasta imensidão negra e oca

Sem ganância, nem fastio,

Sem repugnância, nem estio,

Sem a humanidade louca

Presa por um fio,

Apenas… frio.

 

Frio, pois o vazio sem estio nunca ouviu que se podia aquecer,

Sem saber, pudera jamais perceber o quão bem sabe o calor,

O calor que é vida, que é ferida desmedida de alegria, que é ardor,

Que é amor… ai, o calor.

 

Não esquecer que sem saber do esplendor do calor,

O vazio preteriu o rubor, paleta infinita de sabor,

À férrea firmeza do frio.  

Assim era o vazio…

NS

Canto II

lenda roberto 2

Não obstante, reza a lenda que o vazio, nessa contenda

De ser frio pra lá do que se compreenda,

Foi tocado por frieza maior que a sua

E despido como era, alma nua

Enfrentou a mais suprema frivolidade:

Conheceu a solidão da eternidade.

 

Foram negros, abismais todos os dias procedentes.

Já o vazio nem nome tinha, nem parentes,

E ao redor ensurdecia a calmaria.

 

Mas nos escombros sobre os ombros do vazio

Que tremia, se tremia (!) já de frio

Reluziu pequena e frágil labareda…

Anunciando a chama viva e franca e leda,

a que o negro a pouco e pouco talvez ceda

viu o vazio sinais de estio e então sorriu,

ante a bonança do clarão fugaz da esperança.

Roberto Leandro

P.S.: Em 2019 estreamos com a Lenda, um conjunto de narrativas poéticas em que vários poetas completma em sequência a narrativa iniciada por outros almejando criar uma narrativa coesa sobre o mesmo tema. Para a semana a Lenda continua…

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