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O Museu onde pode tocar

Museu dos Salgados, Dezembro 2018, Salgados

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Pode soar a mentira graúda dois gulosos irrecuperáveis virem agora falar de museus, arte, rococós e coiso e tal. E confere. O Museu dos Salgados é mesmo «só» um restaurante cujo nome se pode justificar (embora haja grande mistério no tópico) pela estrutura do antiquário centenário que o abrigou ao estilo rústico moderno. Não obstante, é uma interessantíssima e variada galeria de arte. As exposições são, no entanto, curtas e as peças apresentadas são sempre vendidas sem ir sequer a leilão.

A zona envolvente é aclamada pelas magníficas praias, pela singular lagoa que atrai adeptos de bird watching, pelos campos de golfe soalheiros e luxuosos hóteis que oferecem momentos de lazer no melhor do Algarve — a praia e o campo em plena harmonia.

Tendo na base das suas esculturas gastronómicas a cozinha portuguesa e os ingredientes que a região providencia, o chef acrescenta aos molhos cremosos da cozinha francesa as especiarias orientais que tornam cada prato uma instalação de classe que poderia chamar-se «Portugal pelo mundo». O serviço charmoso, o ambiente selecto e muito acolhedor, os empratamentos artísticos e os sabores bem equilibrados são uma paleta que nos faz querer estar sem tempo contado e voltar sem demora.

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Bom anfitrião de apreciadores nacionais e estrangeiros, o Museu adapta-se às culturas e às exigências de cada visitante e tem sempre uma obra de arte à altura: as duas salas de 44 lugares cada permitem a perfeita harmonia de cores distintas numa mesma tela – aquele jantar a dois, o encontro de negócios, o aniversário do amigalhaço ou o regabofe de família com as crianças a espraiar-se no jardim adjacente, devidamente acondicionado para a sua segurança e traquinice. Pudemos comprová-lo enquanto brincávamos tranquilamente com um Gin e um moscatel, aguardando a nossa mesa.

A ementa também revela este cuidado de agradar em grande escala, sugerindo opções mais conservadoras e outras mais futuristas, mas sem entrar em dadaísmos nem abstracionismos. Arte livre, com muita cor e sabor, livre de fronteiras e aromas logo à entrada: bruschetta de picadinho de tomate, orégãos e anchovas marinadas; cogumelos recheados com presunto e ervas; carpaccio de magret de pato fumado com nozes e azeite de trufas; vieiras fritas com compota de laranja, amêndoas torradas e sementes de papoila, ou simplesmente queijo gratinado com mel serrano, azeite e orégãos, a nossa primeira aquisição.

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A galeria principal captou-nos a atenção com um «tríptico» marítimo: tamboril, vieiras e camarão são a combinação do autor, que serve a delícia com arroz e molho de estragão e açafrão, só para dar nas papilas gustativas. E dá-lhe bem, o artista. Em contraponto, as ofertas eram de um suave peito de pato à chefe ou, por exemplo, 300 gramas de carne maturada ou um Tomahawk que podia alimentar a família na ceia natalícia. À laia da sensatez, que isto dos museus é novo para nós, apostámos no tornedó Rossini com fois gras e trufas, servido com batata gratinada e legumes, que é uma forma de arriscar sem  grande risco, convenhamos. Qualquer das criações estava perfeitamente cozinhada e com uma combinação de sabores apaixonante. Apostamos que Van Gogh daria a outra orelha por qualquer uma destas peças do Museu, mas não foi preciso tanto. Os preços são acima da média (cerca de 40€ por pessoa) mas, como na verdadeira arte, o valor é plenamente justificado pela qualidade, criatividade e prazer que nos oferece.

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O vinho ficou a cargo do sabedor curador da enologia do Museu, que atenciosamente nos serviu um Encostas de Estremoz Grande Escolha 2014 branco, cujo nome não podia estar mais de acordo com a obra. Foi sem dúvida um dos momentos altos da ida ao Museu, o acompanhamento profissional e atento da equipa. E porque a exposição apresentada foi tão completa e a hora se estendeu para lá do que supúnhamos, deixámos a sobremesa para uma outra visita, sabendo de antemão que também aí as criações têm imaginação e sabor q.b. para nos trazer a este cantinho pitoresco mesmo à beira da estrada, tão recheado de arte como os famosos Salgados.

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Restaurante Museu dos Salgados

Estrada de Vale de Parra

8200 Albufeira

18h30 – 00h00 (encerra ao Domingo)

T.: 289 516 385 / 965 675 045

Preço: elevado

Maria João Barbedo e Roberto Leandro

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