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Transverso – Crescimento

Capa

Ora viva! Quem se lembra da sua infância? Quem se lembra do momento em que deixou de ser criança? Transversemos para esse belo tempo, em que as dores de crescimento se equivalem às maravilhas e terrores do descobrimento de um novo mundo e de um novo ser, nós próprios.

A primeira recordação que destaco é filme Florida Project (2017) de Sean Baker, que traz à memória aqueles verões intermináveis, de dias infindáveis, de aventuras eternas entre amigos. Qual parque de campismo/aparthotel em Agosto, a vida de uma pequena e curiosa comunidade moteleira é realisticamente retratada em todas as suas nuances. As brincadeiras das crianças cruzam-se com a vida dura dos adultos, as diabruras e esquemas da canalha com o escapismo dos pais e mães, a riqueza do turista abonado face ao “indígena tropical” que luta para sobreviver, a visão quase mágica de uma menina com a crueldade das circunstâncias da vida de sua mãe, as inseparáveis amizades infantis com a volatilidade das relações dos crescidos.

A dança da realidade

Num registo mais fantástico e surreal, desbravemos o território até A Dança da Realidade (2013) de Alejandro Jodorowsky. A história autobiográfica conta a infância do realizador, embebida em magia e simbolismos que nos desafia a, de facto, dançar com essa realidade. A fantasia infantil é a tinta que desenha esta película e, talvez, melhor que nenhuma outra consiga demonstrar a visão de uma criança sobre o seu país. Um país em que coabitam seres místicos e um pai tirano, uma mãe com voz de anjo e uma terra em revolução, a premonição clarividente do futuro e o passado por resolver. Uma peça de artesanato, escondida para descobrir várias vezes, para ser vivida tão intensamente como as paixões nela retratadas (como um miúdo que gosta de ouvir o mesmo conto inúmeras vezes, talvez encontrando novos significados em cada revisita).

Florida Project

Passando do “celulóide” para o papel, revisitemos a História Interminável (1979) de Michael Ende. Mais conhecido pelo filme (e pela música 80’s), o livro de fantasia é uma obra prima do género, desenhando um mundo imaginado por uma criança, como uma quimera de todas as histórias infantis. Claramente dividido entre duas partes, o desejo de aventura e o enfrentar dos medos imberbes estão espelhados na primeira, enquanto a segunda é uma forte metáfora da criança tirana e da transformação necessária ao crescimento. Sob a forma de parábolas, experenciamos alguns dos desafios que as crianças enfrentam ao crescer: o terrível medo do escuro, a busca do desconhecido, o revelar das forças e fraquezas, a perda de uma amigo querido, a pureza do primeiro amor, o poder infinito da imaginação, o egocentrismo destrutivo, a mágoa de sabermos que estamos a crescer e que não podemos voltar atrás. Para amantes de fantasia e apaixonados por histórias perfeitas.

História interminável

Até ao Natal!

Rafael Nascimento

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