Ambiente & Cidadania, Cartas da Terra, Rubricas

Carta aos Balurcos desta vida

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Tenho tempos em que me perco de mim.

Enfiada numa espécie de roda giratória, apenas cumpro rotinas.

Afogo-me na previsibilidade da agenda, acordo, como, trabalho e deito-me sem ter notícias minhas. Respondo às necessidades (sobretudo alheias) e bloqueio emoções.

Fico presa na rigidez das coisas que têm de ser feitas e não me escuto, nem me olho no espelho. De vez em quando percebo que descaem os cantos dos olhos e da boca, vincam mais umas rugas aqui ou ali. Às vezes irrito-me por coisas pequenas ou que não posso mudar.

E esqueço coisas importantes e coisas que poderia e quero mudar. Faço de conta, jogando nas cartas do hábito e da indiferença. Aguento. Distraio-me para aguentar mais. Funciono.

Mas estou vazia. Ou cheia de muito lixo, o que vai dar ao mesmo.

Ser amigável comigo é uma tarefa exigente. Preciso de me distanciar, de ganhar perspectiva para me escutar, para saber como estou e poder reparar-me. Em movimento. Activando e desafiando o corpo cansado de outras tensões. Confrontando-me com os limites ténues de outros espíritos de sacrifício que raiam o masoquismo.

Ainda não chegou a altura de me permitir descansos mais parados. Nem de autorizar-me a correr os riscos de mudanças. Mas penso nisso. E tento perdoar-me.

– Para que servem realmente os meus escapes caminheiros?

Estou segura das minhas razões mas tenho alguma dificuldade em explicar e o entendimento do meu círculo mais próximo varia bastante passando por diferentes níveis de suporte e critica.

Este ano o plano era ambicioso: passava por fazer cinco etapas da Via Algarviana[1]na companhia de uma jovem amiga.

Não me preparei, confesso – levei bagagem a mais, sapatos desadequados e um alheamento das reais condições do terreno; e as ingenuidades pagam-se caro.  

Ao fim de duas etapas pedimos resgaste. As razões somadas para a retirada estratégica foram (i) a dureza do percurso; (ii) o calor que nos castigou com quase 40º; (iii) a escassez de abastecimento alimentar; (iv) a crueza das gentes da serra; (v) uma infecção oportunista e uma bolha no pé (democraticamente distribuídas).

Apesar de tudo, gostei e confirmei que existem formas de sair do tempo.

Depois desta caminhada de quase 50 km em 2 dias (Alcoutim a Balurcos em cerca de 30km e Balurcos[2] a Furnazinhas em 18 Km) a inscrição no tempo contado pelo relógio e pelo calendário ficou diferente. Na verdade pareceu-nos um mês.

Garanto que é possível viver outras dimensões do tempo quando o espaço e as comodidades se alteram. Sobretudo quando a sobrevivência passa a estar dependente do muito básico: de ter água, de ter comida (para além dos figos que apanhas da árvore e das batatas fritas e das bolachas de aveia que compras nas lojas de aldeia, porque não têm mais nada), de não te perderes do caminho, de não seres atacada por nenhum bicho e de ter abrigo; e já agora, estar de boa saúde.

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Argumentam alguns – mas porquê sujeitarem-se a essas provações, a esse sofrimento? Se hoje os tempos e as condições de vida já permitem ultrapassar tudo isso?

Talvez seja uma necessidade de superação, de testar limites, de descascar os excessos e ir ao essencial, de nos acharmos no contacto bruto com a natureza e connosco, de nos libertarmos do que realmente não faz falta nenhuma e não interessa muito. Talvez seja também o mito do herói a fazer das suas…

Explicitações feitas, nesta carta fica registada a intenção de voltar. Melhor preparada. Pedindo aceitação e paciência aos Balurcos da minha vida. Lidarmos com as dissonâncias uns dos outros com empatia e generosidade, talvez nos ponha em caminho para sermos pessoas melhores.

Caminho

Um abraço a cada um/uma

Isabel Passarinho

[1] Apesar da Via Algarviana não ter sido estabelecida com um propósito religioso, a verdade é que a sua origem mistura-se, em parte, com aquilo que foi conhecido como os “Caminhos de S. Vicente”, um itinerário do “Moçarabe” (sec. XI), traçado desde Alcoutim, Silves, e Lagos ao Promontório de Sagres ou Cabo de S. Vicente, numa extensão de 220 quilómetros. 
Segundo a história, foi nesse local que as relíquias de São Vicente deram à costa, numa barca guardada por dois corvos, que a vigiaram desde Valência até à costa algarvia.

Esta rota foi refeita nos anos 90 do século passado por influência de ingleses residentes que gostam de caminhar.

[2] Inspiração livre no nome da aldeia de Balurcos, concelho de Alcoutim. Achei giro, vá.

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