Artes & Cultura, Rubricas, Transverso

Transverso – Contos

Wild Tales

As férias já foram há muito… Os afazeres mundanos apanham-nos e voltamos à rotina… QUEBREM A ROTINA COM O TRANSVERSO, lendo o primeiro episódio da nova temporada que nos traz o tema Contos. Os contos da carochinha e do arco da velha, por muito mórbidos que sejam, não batem as colectâneas que vos vou apresentar a seguir.

A temática da violência (in)contida, latente nas sociedades ditas modernas, é bizarra e delirantemente explorada em Relatos Selvagens (2014), um filme do argentino Damián Szifron. Em 6 contos dos velhos temas da vingança, amor e ódio, conflitos éticos e poder, somos presenteados com realistas cenários de seres humanos levados aos arames. O sabor do humor negro perpassa de episódio para episódio, deixando um rasto de destruição entre a gargalhada e a surpresa incrédula. O mais acutilante nestas histórias, de seres humanos possuídos pelos seus impulsos, reside na familiaridade onírica que o espectador tem com a narrativa.  No fundo, todos já nos imaginámos nestes mesmos cenários e todos já tivemos a tentação de exorcizar os demónios que nos atormentam numa explosão homicida; a empatia é aterrorizante…

MV5BNzAzMjA1ODAxOV5BMl5BanBnXkFtZTgwODg4NTQzNDE._V1_SY1000_CR006741000_AL_

Carregando no acelerador no terror, rumando ao Halloween do final do mês, travamos no Trick ‘r Treat (2007) de Michael Dougherty. Mais uma vez uma colecção de histórias, desta feita ocorrem todas na mesma noite de Dia das Bruxas com intersecções mais ou menos subtis entre si. Assumindo um formato mais fantástico, mas mantendo o humor negro, os vários contos de terror brincam com os conceitos clássicos do capuchinho vermelho, do vampiro, do lobisomem, do velho maluquinho ou do miúdo esquisito. Uma viagem numa montanha russa de surpresas e contra surpresas, que vão satisfazer o apetite de qualquer fã de terror clássico. Uma antologia para ver numa noite de Outono com um saco de doces na mão, encarnando o verdadeiro espírito do Halloween americano.

Por fim estacionamos numa leitura, Cloud Atlas (2004) de David Mitchell. Atualizando o conceito do típico livro de contos, as histórias são distribuídas por várias épocas históricas passadas, presentes e futuras, sendo cada uma dividida em duas partes que se dispõem como um reflexo de um espelho; assim o primeiro conto só termina no final do livro, o segundo tem o seu desfecho em penúltimo lugar e assim sucessivamente. Outro factor que contribui para o valor desta obra, provavelmente mais notado na versão original, é o uso de várias formas de inglês, desde o inglês dos exploradores do século XIX, ao contemporâneo e inclusivamente a ensaios sobre evoluções futuras desse idioma.

Para além da inovação da forma, o conteúdo é igualmente sumarento, traçando ligações e influências entre os vários personagens, quase como se fossem encarnações umas das outras, retratando o confronto épico e transgeracional entre a prática do bem e as maquinações do mal, entre a construção de uma sociedade justa pelas minorias e o rolo compressor e indelével da vontade dos poderosos e das indiferenças das massas. Não é um livro fácil, podendo mesmo ser opressivo e desesperante, pois oferece poucas hipóteses de redenção. Uma obra filosófica que planta questões complexas na nossa cabeça, enquanto nos assombra com o enredo. Para os que já viram o filme, a leitura expande e cria um outro universo que a película é incapaz de reproduzir.

trick r treat halloween main

Assim vos deixo com estas três antologias de contos.  Até Novembro!

Rafael Nascimento

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s