Ambiente & Cidadania, Cartas da Terra, Rubricas

Carta ao Padeiro

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Escrevo-lhe sem o conhecer, nem tão pouco saber do seu paradeiro.

Descanse, se lhe vier à cabeça aquela expressão popular da ‘filha do padeiro’ que também não é o caso de procurar pai…

– Então? Perguntar-se-á, se esta carta lhe chegar.

Acontece que estive há pouco numa vila da raia alentejana e disseram-me que não havia padeiros na terra.

Atualmente o fornecimento de pão (industrial, claro) vem de fora e é de muito má qualidade – branco, ‘fino’, com aditivos químicos, sem cheiro, nem sabor.

Então mas o que aconteceu aos vossos padeiros? – quis saber

– Tínhamos tantos, menina! Tantos que até emigraram para a Venezuela e outras paragens. Porque os ofícios eram duros e o trabalho não dava para o sustento. E os gostos mudaram, as pessoas agora querem pão fino e as máquinas fazem tudo.

– De facto, ainda agora existe muito trabalho que não dá para o sustento, penso eu.

E lembro-me dos impérios das novas Padarias urbanas (Padaria Portuguesa, Padaria do Bairro..) que evocam estas realidades extintas e fico perplexa com a sua prosperidade.

Partilho consigo um poema atribuído a um senhor chamado Bertolt Brecht.

Intermezzo

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho o meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

Lisboa-padeiro-02

Tenho consciência que muitas profissões desapareceram e vão desaparecendo dia após dia.

Os ofícios corporativos, pré-industriais, que se aprendiam do seio familiar ou na proximidade, deixaram de ser viáveis – dizem. Foram modos de vida que desapareceram. Porque a produção nestes casos estava intimamente ligada ao modo de vida.

Como o meu avô materno que era Abegão[1]. Ou o amola-tesouras que também consertava chapéus-de-chuva, anunciando a chuva com o seu apito – ainda hoje me alegro quando oiço aquele som e defendo que são património cultural.

Provavelmente estou a ficar uma velha saudosista. Provavelmente não interessa muito que o pão seja feito de bom cereal, amassado com água, fermento natural, sabedoria e amor. Provavelmente têm razão os estudos sérios (por exemplo, como os da Ernst & Young) que referem que em 2025 um em cada três empregos deve ser substituído por tecnologia inteligente ou da Universidade de Oxford que indicam que 47% dos empregos que hoje conhecemos desaparecerão nos próximos 25 anos.  

Mas na verdade, se esta carta lhe chegar quero dizer-lhe que nunca esquecerei o seu pão – aquele sabor e aquele cheiro a fermento não são copiáveis. Também lhe quero dizer que enquanto tiver trabalho e ganhar por ele, estou disposta a comprar o pão tradicional. Mesmo mais caro, porque a qualidade paga-se e a saúde não tem preço.

E ainda que conheço uma padeira numa pequena vila da Beira que prossegue o seu oficio aliando a tradição e a modernidade; e ainda arranja tempo para distribuir o pão pelas aldeias isoladas da serra e levar o correio e os medicamentos aos idosos que por lá resistem.

Também conheço outras pessoas (chamam-lhes novos rurais ou permacultores) que são instruídos e têm mundo, deixaram os seus trabalhos e voltaram às terras do interior para recriar modos de vida mais sustentáveis e colaborativos: e fazem pão, imagine![2]

Talvez haja esperança!

Para si e para cada um de nós.

E eu importo-me consigo – era só isto que lhe quero dizer.

Muita saúde

Isabel Passarinho

Caxias, 31 de Agosto de 2018

[1] O Abegão (condutor de juntas de bois, ferrador e ferreiro) era uma espécie de antecessor dos camionistas, mas também pau para toda a obra. Fazia a manutenção do equipamento agrícola e utiliza a junta de bois para os trabalhos agrícolas mais pesados.

[2] No último sábado de cada mês vá conhecer o ‘Sábado Vivo’ no Jardim de Castelo de Vide

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