Ambiente & Cidadania, Cartas da Terra, Rubricas

Carta à Sofia

Sofia2

Caxias, 31 de Julho de 2018

Como estás, Sofia?

Gostava que considerasses esta carta como uma proposta de encontro.

Uma proposta que reconhece os desentendimentos e os problemas com os quais temos que viver. Porque simplesmente não temos como (nem para onde) os deitar fora.

Passei por Coimbra. A tua Coimbra que é sempre mais provinciana para ti do que para mim que sou visita e tenho facilidade de sentir a terra dos outros como minha – e assim ser de muitas terras. Actualizei-me na tua terra com um passeio da Sofia à Alta e confirmei que, na história da cidade, não se cumpriu a promessa que esteva na origem da rua com o teu nome[1].

Localizações à parte e, apesar de todas as parangonas, o conhecimento é parente pobre nesta época e tem pouco investimento neste país, sendo muitas vezes confundido com informação.

– Então e uma consulta no Google não resolve? Não estão lá todas as respostas? – oiço.

– Estarão a um click muitas respostas, mas faltam perguntas – apetece-me responder.

 Aproveito para dar o braço a torcer e dizer-te que tens razão (sempre tiveste): existem por aí pessoas a fazer de intelectuais (donos de informação e difusores de ideias/dados) e muitos de nós a fazer de ovelhas que mastigam quotidianos, aceitam sem debate, sem capacidade crítica, nem força ou ânimo para se pensarem ou pensar sequer – eu costumava contestar e dizer que intelectuais éramos todos nós, enquanto seres pensantes.

Mas hoje tenho a ideia de que estas dicotomias já não servem. Coexistem todas as teorias e contra teorias, num excesso que, por vezes, aumenta a indiferença e o alheamento.

Dizem-nos que podemos pensar, dizer e ser tudo o que nos passe pela cabeça mas, de facto e dependendo de quem somos, onde estamos, para quem e sobre o que falamos, também podemos ser proscritos ou mortos. Ou silenciados. Ou afastados dos locais onde se difundem as ideias, das organizações, do trabalho, do rendimento, dos círculos de decisão ou de influência da decisão. Ou não acontece nada disso mas também não temos acesso às fontes, aos meios e às pessoas que queremos alcançar. Ou até se usa a palavra e nada acontece – não somos todos espectadores e testemunhas das inúmeras atrocidades aos Direitos Humanos a acontecer um pouco por todo o lado?

Ou então nem queremos dizer nada, Sofia, nem temos nenhuma ideia própria sobre assunto nenhum. Queremos apenas ter conversas pequenas sobre assuntos triviais e levar a vida o melhor que se pode, porque a morte são dois dias.

Por mais globalizados que estejam os meios de comunicação, o acesso aos palcos e aos conteúdos do debate de ideias faz-se por portas estreitas e controladas – como quase sempre na história, o pensamento e a liberdade que dele advém parecem ser exclusivos das elites que em cada terra têm voz, das tribos mainstream e anti mainstream e dos poderes instituídos.

Em jovem ouvia as histórias da censura e de como era preciso estar atenta para aceder aos não-ditos. Fiquei com a ideia de que a censura seria uma espécie de jogo de gato e rato – sinistro e perigoso mas com regras, como todos os jogos.

Hoje tenho dificuldade em perceber quais os jogos que estão a ser jogados e, se têm regras que se possam entender. Alinhando com a teoria da conspiração, começo a acreditar que somos marionetes em jogos que não pedimos para jogar.

Existem formas muito eficazes de uniformizar pensamentos, comportamentos e padrões de consumo.

A liberdade de pensamento anda pelas ruas da amargura – definha o pensamento crítico e as pessoas enchem a cabeça de histórias-novelas, propagandas, publicidades, ideologias do tipo ‘vale tudo e só os parvos não se safam’, ideias feitas e acabadas sem margem nem argumentos para discussão. Sofremos uma indigestão informacional e um desligamento (digitalmente conectado) que cria anticorpos ao pensamento que se interroga.

Com a banalização da Inteligência Artificial – e temos mais outra Sofia – lá se vai o pensamento sobre si, os outros e o mundo, lá se vai a consciência, o pensamento ético e mais umas quantas filosofices que cada vez interessam menos e a menos gente.

Lembras-te de quando éramos miúdas e ficávamos horas a conversar na casa de banho?

Neste lugar onde estou agora ando às voltas com um tempo circular, às vezes perdida entre camadas e ficções. E quando me sinto sem movimento, fico ocupada de mais com o que já foi ou com o que não será. Fico em terra estéril.

Tenho andado contigo na cabeça. Nem sei bem porquê. Mas existem passivos nas histórias de vida que talvez permitam alimentar o diálogo, a amizade e a humanidade.

Com um abraço desta tua amiga,

Isabel Passarinho

[1] Parece que nos idos de 1530/40 D. João III introduziu o ensino das Artes na Universidade de Coimbra e esta rua aparece inicialmente associada a um crescimento urbanístico da cidade para permitir este alargamento. As funções vão mudando ao longo dos tempos entre a Alta e a ‘rua nova’ da Baixa. Em rigor, a universidade nunca chegou a estar na Rua de Sofia, ainda que para tal a rua tenha sido aberta.

2 opiniões sobre “Carta à Sofia”

  1. Isabel, gostei muito desta conversa com a Sofia. Se eu tivesse os teus saberes de escrita gostava de ter escrito no essencial uma carta assim, para uma Sofia ou um outro ser de outra galáxia. Sinto bastante as mesmas perplexidades e até uma certa raiva, dado o meu mau feitio. Parece que procuro um caminho entre algo que já não é e outro que ainda não chegou. Obrigada, por fazeres que eu possa sentir uma certa solidariedade na tua escrita.

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