Ambiente & Cidadania, Crónica Social, Rubricas

Crónica Social – Uma carta à memória

algumas-curiosidades-sobre-os-fatores-que-influenciam-a-memoriaFui ao baú descobrir a primeira Crónica Social para o OPINA. Foram 3 anos de muita vida, parindo histórias entrelaçadas entre mim e muitos outros. Tomadas de posição que, mês após mês, procuraram dizer destas lentes com que vejo o mundo, com a minha verdade e vontades de explorar, de entender, de descobrir, de pensar e pensar-me para além das corridas do quotidiano.

Inscrevendo-me, como diria o filósofo José Gil.

Gosto das questões da memória. Um universo do qual sei quase nada mas que me fascina: a arte de criar memórias dia após dia, situação a situação, momentos, instantes, cheiros, paladares, lugares e gente, sempre com gente dentro.

O que recordamos? O que esquecemos? Como reconstruímos memórias? Como nos recordam? O que depende da vontade e o que não depende? O nosso lugar e o lugar dos outros nas nossas memórias? As histórias que ficam e as que não ficam.

A passagem do tempo – o tempo pessoal, o tempo familiar, o tempo histórico e social, o tempo planetário, o tempo sem tempo. As memórias que se apagam e as que se recusam a desaparecer. As brancas. As que persistem. As que nos contam. As que contamos. As memórias que se transformam porque a vida não costuma ser como foi. Não sou saudosista mas o lugar da memória exerce um fascínio paradoxal.

A dita crónica contava assim:

Gosto de ser contra corrente e começo por usar o não – Isto não é.

Isto não é uma rubrica sobre fofocas, vidas cor-de-rosa, fama, espectáculos, chefes de claques, partidos, cães com pedigree, crimes e desgraças exploradas, coisas caras, viagens longínquas, invejas, empresários de sucesso, nem tão pouco sobre a vida dos outros.

Mas então que espécie de crónica social poderá ser?

Podemos reinventar o termo social. E acordar por agora que nomeia a interação entre os seres humanos nesta bolinha perdida no espaço, a que chamamos Terra. Que tem que ver com as formas como os homens se organizam para viver em conjunto. E gerir os recursos e os bens comuns. Também tem que ver com trabalhar e produzir e distribuir a riqueza, nas sociedades que inventámos. Que terá que ver com as formas como nos relacionamos connosco, com os muitos outros e com a Terra. Só por agora. Só para nos entendermos, podemos considerar assim.

Interação entre os seres humanos?

Memória

Isso tanto podem ser as formas de viver com os nossos mais próximos – os que moram connosco ou no nosso coração, os nossos afectos e desafectos, como os outros. Ou nós mesmos na relação que temos connosco. Que será sempre uma relação mediada por outros.

Os outros vizinhos, que saudamos ou não saudamos, os outros colegas ou os outros que partilham filas de desemprego, ou de trânsito, os outros que bebem café no mesmo sítio, os outros que encontramos nas escolas dos filhos, os outros a quem chamamos amigos, os outros que trabalham voluntariamente nos bombeiros, no centro social, na biblioteca, no clube desportivo, na preservação do meio ambiente. Os outros que não têm trabalho. Os outros que nos irritam. Os que são velhos demais. Os que são novos demais.

Os outros que pensam como nós e os que pensam diferente. Os que têm os mesmos gostos. Os que foram educados de forma semelhante. Os que nos conhecem. Os outros que são do mesmo clube da bola e os que não são. Os outros que são da mesma preferência partidária e os que não são. Os que são da nossa terra e os que não são. Os que são de cá e os que não são. E os outros mais distantes. Aqueles a quem atribuímos poderes especiais. Os que mandam. Os muito ricos que não se conhecem. Os que fazem a guerra. Os que exploram e os que são explorados. Todos somos gente em interação. Por mais que nunca tenhamos saído da nossa rua.

Por mais que não saibamos onde fica a Albânia ou a Síria ou a Namíbia. Por mais que as histórias que os media nos contam já não nos toquem. Por mais que nem sonhemos o que os media não nos contam. Por mais que o meu dia-a-dia seja tão duro que me estou a marimbar para as múltiplas frentes de guerra. Ou para as alterações climáticas. Ou para a extinção das espécies. Ou para os transgénicos. Ou para o império das farmacêuticas. Ou para a política. Ou para o desemprego. Ou para o futuro da Europa. Ou para tudo e todos. Até para mim.

Talvez estas crónicas sejam sobre gente. Pessoas. Aqueles seres com a característica singular de serem todos diferentes e semelhantes, habitantes da mesma ‘casa’ e pertencentes a uma mesma raça humana. Afinal talvez seja uma crónica com gente dentro. Com histórias e perspectivas de vida.

Não sou uma tudóloga (espécimen convencida que sabe de tudo e que emite opinião sobre qualquer assunto), nem me levo muito a sério. Tento não julgar, nem me pautar por moralismos. Terei sempre uma perspectiva particular. Sem pretensão à verdade. Mas com a minha verdade.

Encontramo-nos por aí…

Isabel Passarinho

3 opiniões sobre “Crónica Social – Uma carta à memória”

  1. Gosto também desta crónica da Isabel, embora fique um pouco triste , porque parece que não a vou ver mais por aqui. Tenho pena porque o que aqui tem escrito tem sempre uma frescura e reflecte as suas preocupações ou alegrias dos encontros e desencontros com gentes e paisagens e possibilita uma aproximação entre quem escreve e quem lê.
    Obrigada por tudo o que aqui escreveu. Fico aguardando o livro.
    Desta crónica, se a soubesse escrever, diria que o último parágrafo fui eu quem escreveu.
    Espero , ter o gosto de a encontrar por aí.
    Fátima aveiro

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    1. Querida Fátima ainda não me estou a despedir e vamos ver se continuo a dar conta desta empreitada. Que é simultaneamente prazenteira e foco de algumas dificuldades criativas cruzadas com cansaço. Por agora foi só uma ida ao baú. No próximo mês vamos ver se consigo uma crónica novinha em folha.
      Para sempre é a gratidão pelas suas palavras e a estima que nos une.

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  2. Por favor não desista dos seus leitores não desista dos que esperam os seus escritos. Se eu pudesse dava um jeitinho uma ajudinha, mas confesso-me completamente ignorante nestes assuntos. Mas adoro ler os seus textos, conhecer as suas ideias. Esperomais.

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