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Transverso – Deserto

capa

Estamos quase na Páscoa. A Primavera está a despontar. Será que a chuva se vai manter? Ou o deserto vai chegar? Aqui no Transverso chega de certeza!

Para dar um som ambiente a este sopro do deserto, liguem a aparelhagem na Antena 3 (sacudindo o pó a fazer as vezes de areia) ao sábado e ao domingo, entre as 12h e as 13h, ou online quando vos apetecer, para escutar o uivo do “Coyote”. Ora soa a rouco country, ora mais psicadélico e groovy, outras vezes etéreo e contemplativo, mas evoca sempre o deserto, idealizado nos filmes americanos, variando entre eléctricas miragens do calor do dia e o lúgubre acústico do frio da noite.

Em contrapeso a este som de inspiração demarcadamente norte americana, procurem as guitarradas de Bombino que, qual Santana do Magrebe, pega na sonoridade de tradição árabe e a electrifica. O resultado é belo, místico e arcano, lançando-nos para uma festa no meio do deserto, onde imaginamos berberes a dançar com as suas espadas curvas, batendo palmas à volta da fogueira. Bombino é um verdadeiro mestre da evocação dos espíritos antigos.

bombino_by_chrisdecato_05

De forma a encarnarmos esse espírito nómada da vida em liberdade do deserto, que tal revisitar (se nunca viram, já deviam ter visto) o épico de 1962 “Lawrence da Arábia”? Um filme de soberba qualidade técnica e artística (ombreia com os filmes modernos), que apresenta a história de um militar inglês, instigador da revolta árabe contra o império otomano, no decorrer da Primeira Guerra Mundial. Um clássico histórico em todos os aspectos, com vívidas interpretações dos famosos Peter O’Toole, Alec Guinness, Anthony Quinn e Omar Sharif. Uma cenografia brilhante enquadra-nos a acção no amplo deserto, sentindo-se as batalhas mortais que por lá passaram, a vastidão do vazio, a inclemência dos elementos, o grito e os olhos dos povos oprimidos.

lawrence-of-arabia

Pegando na temática dos povos oprimidos no deserto, deixo para remate desta rúbrica a saga literária Dune (esqueçam adaptações cinematográficas/televisivas). A saga original de 3 livros, escritos por Frank Herbert – Dune (1965), Dune Messiah (1969) e Children of Dune (1976), lançou um universo infinito, cheio de histórias, contadas em mais de 20 livros, primeiro pelas mãos de Frank e depois pelo seu filho e outros autores associados. O épico Dune tem na sua génese um mundo universal, composto por planetas e facções que os controlam: casas de nobreza feudal, companhias comerciais ultrapoderosas, cleros com agendas maquiavélicas, senhores do universo, do espaço e/ou do tempo, ordens de guerreiros e o povo que busca sempre assegurar a sua sobrevivência. Num mundo onde as máquinas inteligentes foram banidas (há uma saga em que isto é explicado), o avanço tecnológico reflecte-se na alteração do código genético do ser humano, criando seres sobredotados e supertreinados para tarefas altamente complexas. Este avanço na humanidade contrasta com a crueldade com que os poderosos exploram os povos comuns, numa metáfora perfeita da sociedade. Sugiro começaram pela saga original, que conta a história da criação de um messias salvador, que vem do deserto, e de uma nova religião, com as revoluções e transformações (ambientais, espirituais e políticas) que se seguiram, com o derrube de tiranias implacáveis e sangrentas, o troar de guerras santas infindáveis e o governo “divino” de um universo em convulsão, tudo centrado num planeta completamente desértico. Um imaginário onde é fácil nos maravilharmos com a imaginação do seu autor e nos perdermos na fúria da inovação da própria história.

Até Abril!

dune

Rafael Nascimento

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