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O prazer no trabalho aperfeiçoa a obra

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A cidade louletana orgulha-se dos seus filhos e, de entre eles, há um que lembra mais carinhosamente: o Engenheiro Duarte Pacheco (1900-1943). Ministro do Estado Novo e pai de muitas das obras públicas que ainda hoje nos fascinam e acolhem, tem nesta pitoresca terra uma magnânima coluna de 17 metros de altura e 5 de diâmetro, repleta de esculturas em relevo que recordam o seu percurso incomparável e a obra imensa ao serviço da Nação.

A inauguração a 16 de Novembro de 1953 mereceu a visita de dezenas de personalidades, destacando-se a de Salazar, que só por três ocasiões durante o seu governo visitou as terras ao sul. Pois se tal acontecimento justificou os esforços (à época, consideráveis!) destas deslocações com vista à apreciação de uma estátua prodigiosa, achámos que um restaurante que homenageia a robusta obra seria, igualmente, digno de visita. Não nos enganámos.

Bem perto do Cineteatro Louletano e do dito memorial reside a obra gastronómica de inegável requinte artístico de que o casal Anthony e Cidália é autor: «A Estátua».

A sala, não sendo grande mas bem aproveitada, prima pelos espaços arejados e luminosos. A entrada é de uma transparência vitral que se prolonga ao serviço e aos pratos apresentados: boas sugestões de carne e de peixe, numa carta esculpida não em prol da variedade mas da sua qualidade. Os vinhos bem seleccionados denotam um interesse do casal em acompanhar as tendências, descobrir texturas e casá-las com as criações de Cidália, empreitadas bem equilibradas nos temperos, firmemente alicerçadas em ingredientes de qualidade e com uma apresentação digna de visita guiada.

A casa pratica preços muito medianos, por isso se algo lhe parecer um pouco mais caro (possivelmente um vinho ou as sobremesas de autor) não receie, a aposta valerá o seu preço. Em toda a envolvência, aliás, se comprova uma honestidade intrínseca à casa e aos seus patronos: apresenta uma qualidade superior a um preço moderado e surpreende pelo mesmo motivo que a original estátua – é uma obra de arte que nos agrada sobremaneira e está ali, tão singelamente «escondida» entre a cidade que se estende para outros caminhos.

O couvert (2 €) oferece o tradicional pão fatiado e uma broa de milho caseira apetitosa, além da manteiga, das azeitonas e do “miminho caseiro”, uma pasta para barrar que não vai nada mal na procissão.

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Para começar optámos por um queijo fresco com mel e nozes ombreado por mini-tostas (3.75 €) o que garantiu uma excelente abertura de palatos e permitiu saborear ainda mais a broa da casa. Depois de uma simpática troca de impressões com Anthony, arriscámos na descoberta de um vinho branco de autor, «Aventura 2015» da premiada enóloga Susana Estebán (16.50 €), e não demos por perdidos os goles que nos proporcionou esta conjugação de castas tradicionais alentejanas. Das 6 mil garrafas provenientes de uma colheita manual exigente, reluze um atraente amarelo cor de palha de alma perfumada, destacando-se claramente o pêssego de entre os sabores florais e minerais. Fresquíssimo, sem madeira, mas firme e seco no sabor final.

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Acompanhámos o vinho (para evitar as maledicências) com uma estrela da casa que veio modestamente adornada com salada e molho. E foi quanto bastasse ao Folhado de Salmão (12.50 €) para resplandecer em toda a sua suculência e frescura. Óptima a textura da leve massa folhada coberta de sementes e suculentas as lascas de salmão no seu recheio. Desafiámos a Chef a decidir o outro prato e ela, primeiro surpreendida, surpreendeu depois com a escolha: os portentosos medalhões de porco (13€) dão alimento a quem se prepare para fazer uma marquise lá em casa e deixam um travo delicioso pela combinação com as gambas e os legumes salteados.

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Até aqui a empreitada corria lindamente, cumprindo os prazos e apostando em materiais da melhor qualidade. Sentimos que só podia melhorar quando Anthony deixou escapar um brilhozinho nos olhos ao falar do creme de amêndoa (4.25 €). Confiámos naquele orgulho e ficámos como estátuas. O creme, por si só digno de contemplação, tem no epicentro uma bola de baunilha e ao redor framboesas frescas que acrescentam muito valor (e gula) a esta sobremesa. Apetece fotografar, levar para casa e tomar como medicação para as dores. Quaisquer que sejam.

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Supomos que o famoso engenheiro, lá do fundo da rua, concordará connosco: estatística ou status, está tudo a dizer que se está bem n’A Estátua.

Restaurante A Estátua

Rua Ascensão Guimarães n.º 84

8100-542, Loulé

De segunda-feira a sábado: 12h00 – 15h00; 19h00 – 22h00 

T.: 289 413 171

Nota: Além do menu fixo a equipa prepara “Sugestões de Almoço” todos os dias de semana a preços bastante acessíveis (sopa a 1.50€; prato principal entre 6.50€ a 7.50€) – consulte-as na página de Facebook do restaurante.

Maria João Barbedo & Roberto Leandro

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