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Editorial – Fevereiro

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Vivemos tempos curiosos. Tempos em que uma série de paradigmas paradoxais, que sistematicamente contradizem a lógica, a eficiência ou a construção de valor, são impostos pela força daqueles que controlam mercados e opiniões, recursos e milhões, com o objectivo de empobrecer, embrutecer, emburrecer, tornar dependentes das falsas realidades que vão construindo, os incautos que, presos na sua rotineira luta pela sobrevivência, mais ou menos desafogada, vão cada vez menos tendo tempo e capacidade para pensar de maneira crítica sobre a realidade em que vivem. Tudo isto, na era da informação. Hajam paradigmas paradoxais.

Os livros vivem, hoje, um desses malfadados paradigmas. Não literalmente, que os livros, esses, só ganham vida quando lidos, mas toda a indústria e comércio dos livros sofre de uma aflição asfixiante provocada, quiçá, pela tenebrosa bactéria Escherichia capitalismi (E.capitalismi para os leigos em microbiologia) que, lenta mas consistentemente está a afastar o ser humano de tantas das suas fontes de saber, reflexão, introspecção e espírito crítico. Os livros e a partilha da experiência e/ou da imaginação humana que estes encerram, entre elas.

Verdade é, e perdoem-me os românticos, que os livros nunca foram, desde a invenção da escrita, um instrumento acessível às massas. Foram antes uma ferramenta criada, mantida e acedida pelas elites, culturais, científicas e políticas, pelas claras vantagens que a passagem da experiência e imaginação humana traziam (e trazem) à governação, ao desenvolvimento e ao progresso. Ainda em 1970, em Portugal, mais de ¼ da população era analfabeta, pelo que desconfio dos saudosismos de um tempo em que a obra escrita era acessível a todos. Em 2011, ano de censos, a mesma métrica apresentava valores ligeiramente acima dos 5%. Parece, pois, seguro afirmar que nunca Portugal teve um tamanho mercado para a obra escrita, quer por nunca ter tido tanta gente como nas primeiras duas décadas do século XXI, quer por nunca ter tido tanta gente que soubesse ler.

No entanto, dizem as editoras, que vendas e tiragens estão consideravelmente mais baixas do que há 10 ou 20 anos, os preços, dizem os consumidores estão exorbitantes e cada vez mais altos, a qualidade está mais ou menos na mesma, e a variedade, a diversidade de títulos e de concorrência das tecnologias digitais (inclusive e-books) é incomparavelmente superior. Estaremos então perante uma mudança de paradigma em que o livro, após décadas de proibição, passou de instrumento de afirmação de democracia e revolução para apenas mais um veículo de entretenimento entre tantos outros? Ou será apenas o reflexo de uma indústria editorial que não se soube adaptar, evoluir com os tempos, e que, à excepção da inclusão do plástico nas capas, pouco ou nada mudou nas últimas décadas? Será ainda resultado de uma política empresarial de aglomeração de recursos, que visa sobretudo viver à custa dos autores de nome estabelecido (muitas vezes por motivos completamente alheios à literatura) em vez da criação e distribuição de valor pelos vários intervenientes, do autor ao leitor, sem esquecer editora, gráfica, tipografia, livrarias e todos os demais?

Deixo à consideração de cada um, não deixando de partilhar que, a meu ver, a presente e triste situação da indústria livreira em que livrarias históricas como a Aillaud & Lellos (Dezembro de 2017) ou a Bulhosa (Janeiro de 2018) se vêm forçadas a fechar, enquanto os gigantes editoriais (como o grupo LEYA e a Porto Editora) pouco ou nada fazem para mudar o paradigma da pouca geração de valor, inclusive para os autores, dos livros caríssimos e do consequente afastamento dos leitores, é uma consequência da combinação dos factores acima citados. Deixo também a ressalva de que, à excepção da evolução tecnológica a que se assistiu nas últimas 3 décadas em Portugal, e à qual as editoras são alheias, todos os outros factores estão no domínio de acção das editoras assim como está nas suas mãos a possibilidade de mudança do paradigma do livro e da leitura em Portugal, sem paradoxos!

Nuno Soares

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